Grandes ânforas de barro: tradição milenar segue preservada no Alentejo

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Guilherme Otani

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O Alentejo, maior região de Portugal, guarda entre suas paisagens e tradições marcas de diferentes períodos da história. Entre os legados associados à presença romana está uma prática que atravessou mais de dois mil anos e continua fazendo parte da identidade local: a produção do vinho de talha.

Conhecido pelo perfil encorpado e intenso, o vinho de talha é elaborado a partir de uma técnica ancestral que foi transmitida de geração em geração, com poucas alterações ao longo do tempo. Seu principal elemento é justamente a talha, um grande recipiente de barro que pode chegar a dois metros de altura e é utilizado para a fermentação das uvas.

A tradição é tão representativa da cultura alentejana que, em 2023, a produção do vinho de talha foi inscrita no Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial. Este reconhecimento reforça a importância histórica da prática para as comunidades locais. Além disto, a produção também foi submetida a uma candidatura a Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco e aguarda nomeação.

Embora existam diferentes maneiras de produzir o vinho de talha, o uso das grandes ânforas de barro é o ponto em comum entre os métodos. O processo começa durante a vindima, quando as uvas são colhidas, separadas dos cachos e esmagadas. O mosto segue diretamente para as talhas, onde ocorre a fermentação de forma espontânea.

Enquanto o vinho fermenta, as películas das uvas sobem naturalmente para a superfície, formando uma camada sobre o líquido. Para extrair mais cor, aromas e sabores, essa cobertura é periodicamente quebrada e reincorporada ao mosto. O processo continua até que as películas se depositem no fundo da talha, indicando que a fermentação chegou ao fim.

A retirada do vinho também segue a tradição. Uma torneira instalada na parte inferior do recipiente permite que a bebida seja extraída e, ao mesmo tempo, filtrada naturalmente pelo bagaço depositado no fundo, composto por películas, sementes e outras partes sólidas da uva. 

O ciclo tradicional começa em agosto, com as vindimas, e termina em novembro, quando chega o momento de abrir as talhas e provar o vinho. Um aspecto curioso é que vinhos tintos e brancos podem seguir o mesmo método de produção. Há ainda variedades que combinam uvas brancas e tintas, conhecido como vinho “petroleiro”. 

A tradição das talhas representa uma conexão entre o passado e o presente e oferece aos visitantes a oportunidade de conhecer uma das expressões mais autênticas da cultura alentejana.

Na Honrado Vineyards, em Vila de Frades, além de participar das vindimas e da abertura das talhas, é possível fazer uma masterclass conduzida pelo enólogo da casa, com prova de Vinhos de Talha e petiscos alentejanos. A experiência inclui visita guiada à Adega-Museu Cella Vinaria Antiqua, espaço que preserva utensílios e técnicas tradicionais e permite conhecer o saber empírico dos adegueiros e os segredos de uma prática que atravessa gerações.

Na Adega Gerações da Talha, também em Vila de Frades, o Tour do Vinho de Talha começa a bordo de um jipe, percorrendo as vinhas, e inclui uma visita ao Centro Interpretativo do Vinho de Talha, à própria adega, com degustação de vinhos, e às ruínas romanas de São Cucufate, antiga vila agrícola onde já se produzia vinho há cerca de dois mil anos. Para completar o passeio, os visitantes podem saborear um almoço tradicional alentejano.

(foto: Nelson Carvalheiro)

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